quarta-feira, agosto 05, 2015




Segunda – feira, 14:46 da tarde.Inverno.




Me vejo olhando para um céu cinzento e tento entender o que estou fazendo aqui; no alvorecer de um verão tropical, talvez nessa terra não mais me encontre. Por agora existo, no mundo, perdido, no tempo e espaço.



Levanto da cama torta, mais voltada para a esquerda querendo que eu caia; a pequena mansarda que mais parece a cabine de um barco à deriva, navega sem destino, a espera da hora da partida. O adeus eterno.



O Phoenix Park é bem aqui perto, seguindo a north circular road, à esquerda; faz frio, mas não me importa mais nada. É bom poder flanar às três horas da tarde sem compromisso com nada e sem dar explicações a ninguém. Caminho pelas ruas sabendo que ninguém me reconhecerá para questionar sobre a minha vida; me sinto tão bem quando penso nisso... A única forma de liberdade plena é o anonimato; livre e vazio de culpas, como um cachorro arremessado de um barco, e que ao despertar do trauma da rejeição, já em terra, degredado, se vê num planeta estranho.



Ouço o frio lá fora. Caiu uma folha no teto. Acho que vou ficar por aqui mesmo, encolhido. Da janelinha quadrada com vista parcial para o céu, vejo a chaminé cagada pelo cocô do pombo e nojentas plantinhas nascidas do mofo produzido pela umidade. Bebo meu café; com todo seu engano e odor adocicado e escuro. O amargo e fugidio prazer das tardes vazias. As mesmas tardes que tantos invejam. Como os burocratas que observam a vida através de alguma janela de vidro fumê, temerosos em perder o emprego; cuidando para não manchar a camisa bem passada e a gravata bem amarrada; lamentando em silêncio, lá no fundo da alma amarga, a falta de algo que faz falta. Aquela chama que nunca deveria ter se pagado, a chama da coragem. A coragem de surtar e jogar-se no ostracismo voluntário do imprevisível. Talvez a única maneira de manter-se vivo no momento em que o sentido da vida se dispersa.

Passaram-se dois segundos, eu acho, e entre o cheiro do café emanado na fumaça mágica e o gole amargo, não me sinto bem. Também não me sinto mal. Sinto o café; e uma certa solidão preenchida por uma dorzinha impalpável ao fundo do pulmão; algo agradável proporcionado pela leve sensação do anonimato, que no fundo da alma, talvez seja o que mais se aproxime daquilo que chamam liberdade.



Tenho por hábito ir ao supermercado seguindo o caminho do parque. Às vezes, andando em meio as árvores, procuro a dupla de esquilos que está sempre por lá; vivendo suas vidas; sem ansiedades ou planos para o futuro. A grama verde e úmida, é algo de belo, em contraste com o céu sempre coberto por nuvens densas. Sigo por essa paz triste, observando os irlandeses e seus olhos azuis, sempre tristes, alguns mais mortos que os outros, mas sempre simpáticos, com suas cabeças chatas e seus rostos quadrados.



Observo a cama torta. Aquela que me permite repousar todas as noites depois de voltar do trabalho e beber minha cerveja barata da República Tcheca. Pago trezentos dinheiros por mês para viver nesta mansarda e dormir nessa cama torta. Toda semana, Bill Ryan, o landlord, vem buscar uma parte do quinhão. Ele tem a cópia da chave; portanto não preciso esperá-lo chegar. Ele para em frente a porta e bate duas vezes, se eu não responder, ele entra. Confio no Bill, me parece um homem digno, sempre atarefado em cobrar os hóspedes dos moquifos que aluga. Sempre para lá e para cá com sua caminhonete velha, cheia de chaves e televisões velhas. Sempre as voltas resolvendo problemas com o encanamento de qualquer um dos moquifos que aluga para alguma família de ciganos romenos, ou algum irlandês livre e desajustado sustentado pelo seguro social. Não entendo quase nada do que ele fala - todo este tempo vivendo aqui e ainda não consigo decifrar o jeito irlandês de falar inglês - , mas o seu olhar deixa bem claro que ele não está nem ai para mim. Talvez seja melhor assim. Parece que a ele pouco importa sobre a minha vida e meus hábitos; o moquifo caótico não lhe causa nenhum incômodo ou resquício de julgamento. Talvez a vida tenha ensinado alguma coisa ao Bill ; talvez ele tenha entendido que a vida é uma boa bosta mesmo; e estamos todos chafurdando na mesma direção. Ele mesmo, figura bizarra que é, não tem mais porque virar os olhos para essa constatação. Ele não me disse nada, mas ele sabe; eu sei que ele sabe...



Por um momento me lembrei dela, da nossa despedida. Já se passaram alguns meses, mas todas as noites ainda sinto como se estivesse quase sendo jogado para fora da nossa cama torta; com seus braços largos e seus chutes a me empurrar. É estranho, mas ela, mesmo dormindo, segurava meu braço no momento em que a queda era inevitável. Ela me segurou até onde pôde com isso. Depois alguém adoeceu e me disse que precisava partir. Lembro do táxi partindo, meu olhar perdido no infinito do universo perdido, e seu choro dramático escorrendo por trás dos óculos coloridos. O meu choro engolido abriu uma cratera opaca dentro do peito. O táxi se distanciou. Dentro de mim resta a dor; e o luto dos amantes separados pelos infortúnios desta vida permanecerá por muito tempo. A imagem da partida; a morte dos que insistiram em se perder para se encontrar. De qualquer maneira, aqueles olhos, grandes e tristes; com a beleza e as olheiras da certeza de quem não tem nada a perder numa vida sem sentido, continuarão me acompanhando em minhas fugas erráticas, e compreensivelmente, aprovando as minhas escolhas inúteis e perdidas; mesmo que de longe; mesmo que na verdade ela já não pense em mim nas noites frias de inverno.







Wendy

Confortável quarto,
me acolhe
Cama grande me engole
- vem, mamãe
me acolheme engole

sábado, novembro 24, 2012

4:20

Morrendo à beira deste pequeno precipício interior, a noite se esvai. Não importa o que virá pela frente, quando o sol chegar não mais estarei aqui. Qual foi a ultima coisa que Marco Antônio disse a Cleópatra? Podem dizer o que for, para mim a única coisa que importa é que no fundo eles se amavam. A única coisa que importa já não existe em mim, não consigo mais sentir. Estou aqui sozinho neste conjugado, já não sei quantos dias. Até ontem o telefone ainda tocava bastante. Eles devem estar querendo me demitir. Fiquem à vontade para fazê-lo. Quando eles resolverem tomar uma atitude, já será tarde demais. Esperei o fim pacientemente, tomando minha cervejinha. O calendário maia dizia que seria hoje, mas já passou da meia – noite e até agora nada. Passei todos estes dias aqui trancado esperando o entardecer da humanidade, e no final era tudo mentira. Larguei tudo por isso, por nada, mas no final das contas me sinto bem em ter assumido esta fuga. Os babacas do trabalho foram fundamentais para esta decisão. Não que eu tenha raiva deles. Tinha, mas agora sinto pena. Quando bebo minha cervejinha gelada fico mais emotivo. Na verdade até que me relacionava bem com aquelas pessoas. Eles eram engraçados. As conversas limitavam – se ao jogo de futebol do final de semana anterior, ou a suposta homossexualidade do Siqueira, ou mesmo ao maravilhoso carro importado que acabara de chegar ao mercado, e claro, seria uma grande prova de sucesso circular por aí com o mesmo. De certa forma já estava farto daquele trabalho. Chegar às 8:58 da manhã todos os dias para passar o cartão na catraca, e olhar para aquelas mesmas pessoas falando mal de alguém – nos intervalos de alguma apelação judicial - , estava me fazendo sentir um insustentável impulso ao encontro com a soturna Dama da Noite. Na verdade, aqueles dias teriam sido menos dolorosos, se a vontade de encontrar-me com ela para uma partida decisiva de xadrez tivesse se concretizado. Mas nada mais é concreto, se é que um dia foi. As imagens disformes, o sol queimando pela manhã; me deixando quase cego e com asco do meu próprio corpo – suado -, arrastando-se em direção ao maldito ar condicionado central do ambiente corporativo. Tudo que me roubou a velha chama. O terno, a gravata – e seu nó górdio -, e a diária sensação de que a vida passa à minha frente, mas eu não posso vivê-la. Estou decepcionado, confesso. Pensei que a esta altura da vida ter um emprego estável e um apartamento em Copacabana fosse o suficiente. Até algumas horas atrás pensava sinceramente que a hecatombe viesse me poupar de dar cabo da própria vida. A hecatombe não veio, mas se eles não querem acabar de vez com essa palhaçada, acabo eu. Deixo o copo de cerveja em cima da mesa e a janela aberta para circular o ar e manter o cheiro de maresia que vem de alguns quarteirões desde a praia. Saio somente com uma mochila preta e chinelos nos pés, mas deixo a porta aberta para quem quiser entrar. Encontrará pertences. Objetos apenas, que não mais me pertencem. São 4:20 da madrugada, no primeiro ônibus que partir da rodoviária rumo ao Nordeste, lá estarei eu. Sol na cara! Já sinto o vento livre em direção a algum lugar que me traga sentido, depois do fim do mundo.

sexta-feira, setembro 26, 2008

Derradeira madrugada


Não tinha porque chorar, tudo já estava resolvido dentro do peito. Este ponto de ônibus nesse nada, escuro e no meio de tudo. Porque o mundo está desabado bem aqui na minha cabeça. Mais uma vez, esperando a Kombi que me levará para a estação das barcas, neste ponto de ônibus de cimento, caindo aos pedaços e rodeado por mato com cheiro de queimado.Talvez este cheiro não me deixe nunca mais. Não é só cheiro de mato queimado, sinto também cheiro de pneu queimando misturando-se ao lixo. Aqui algumas pessoas transformam terreno baldio em depósito de lixo, depois ateiam fogo. O cheiro é horrível, mas não sei, acho que sentirei saudades.

Sim, ela é a única pessoa que um dia me entendeu. Aquele sorriso sarcátisco, a mão direita a segurar o cigarro e o olhar de pombagira rindo da minha desgraça. Mas ela entendia, e ria, porque talvez a desgraça dela fosse maior, e quando ela caía em desgraça era um pote cheio de mágoa; me ligava a qualquer hora da madrugada. Nós somos seres da madrugada. A lua sempre nos acolheu .

Esta noite houve a conversa derradeira, acabou. Ao me despedir, antes de cruzar a porta, ela estava com os olhos marejados, então os virou, olhou para o chão e deu uma tragada.

Caminhei pela estrada de terra até o ponto de ônibus. Foi ela quem terminou, disse que estava apaixonada por um cara, um cara mais velho. Sinto uma tristeza profunda, mas ao mesmo tempo um certo alívio, não sei, é tudo muito forte, tanto que cansa.

É como se estivesse voltando da guerra, meu corpo está pesado. Não há ninguém neste ponto de ônibus, apenas uma alma perdida, a minha. O céu, cheio de estrelas, parece que vai me engolir. Hoje é sábado, duas da madrugada, e as pessoas devem estar se divertindo.

Avisto uma kombi ao longe. Ao entrar peço ao motorista que me deixe na estação das barcas. As ruas estão desertas, os subúrbios distantes do Rio de Janeiro estão todos assim. A kombi para. Um grupo de pessoas entra. Estão todos animados, parece que retornam de um baile funk. Conversam alto e riem. Eu lá atrás, sinto-me protegido pela Senhora Madrugada, ela nunca me faltou. Rumo à Copacabana.

quarta-feira, setembro 24, 2008

Cidade imaginária



Há tempos que não venho a esta cidade. Na verdade só estive aqui uma única vez. A segunda vez, bem..... talvez não conte. Afinal,foi um grande tiro no pé, que no fundo me colocou em contato com aqueles velhos sentimentos , que as pessoas procuram fugir : olhar-se no espelho pode ser perigoso.

Bom, falarei então - por prudência -, da primeira vez.

Fui recebido no aeroporto por alguém que amava, e isso permanece em minhas lembranças mundanas , porém , lunares. Não esqueço aquela noite de lua cheia. Eu e ela - ao volante - percorrendo aquela estranha esplanada dos ministérios, ao som único do motor do carro, e do meu imaginário sentimental sobre aquelas linhas futuristas, iluminadas pela luz natural do satélite da terra.

Ao pé do ouvido um beijo desprevenido, enquanto observava o flamular da grande bandeira do Brasil. Confesso que fiquei emocionado. Um certo sentimento patriótico misturado à magia do reencontro. O centro político de uma grande nação, observado por um obcecado em ilusões: Encaixe perfeito.

Tudo ao redor vazio. O Palácio do Planalto iluminado em meio as estrelas infinitas de um país continental. Lembro que avistei uns, talvez, adolescentes bebendo vinho no gramado. Lembrei que já conhecia a cidade - pelo menos em sonho - antes de estar aqui. Lembrei daquela banda de rock que um dia amei, e ainda amo.

Ela estava bonita aquela noite. O olhar triste, como sempre. Acho que nunca me apaixonei por alguém que não tivesse o olhar triste. Nada mais belo que o olhar triste de uma mulher de vinte quatro anos...

Para Ian Curtis ( por Atmosphere )




No silêncio deste dia nublado


Caminhando vou


Não chove mais


O cinza - porém-, impera


Não quero mais ouvir essas pessoas


Caminham rápido


Dialogam rápido


As calçadas da Avenida Rio Branco não as suportam


Eu não as suporto


O fone de ouvido me protege


Sinto medo de olhar a verdade


Mas a música me protege


E no silêncio dessa atmosfera


Eu só quero olhar para cima


E ter certeza de que não verei o céu


somente o cinza e os prédios


Porque essa música me protege


Essa música me faz sentir a verdade


Ando cada vez mais rápido


A música diz para eu ver o perigo


O contrabaixo elétrico me ensina o caminho


A letra diz que a minha confusão é mera ilusão


Sinto acelerar meus passos


Mas eu não tenho rumo


Caminho para o absurdo


Não quero ser tocado


Não quero ser notado


E no silêncio desse dia chuvoso


A multidão caminha rápido


Estão no horário do almoço


Não sei
Mas não quero voltar do almoço


Penso em me esconder naquela livraria


Me enfiar dentro de algum livro


Mas não importa


Caminhar está me bastando




Sinto agora
De maneira plena
Algo que costumo negar




O distanciamento.

Noites de Cabíria


Corre na linha do trem, criança

Corre sem destino

Larga pra trás a tristeza

E deixa tua alma vagar

nesses matos vazios

nestes matos queimados

O trem já se foi

Corre!

Vai atrás dele

E olha pro céu

Ela está ali

A esperança ainda vaga por ai
...

Às vezes ela aparece

Na forma de uma mulher

Aquela

Que é a noite boêmia de uma vida breve

Que está sempre por se realizar

...

Aquele olhar não se afastará de suas lembranças noturnas jamais!

Como se fora uma maldição

Para mostrar-te

Que ai dentro

Ainda bate um coração ébrio

Que jamais se confortará

A não ser

Que aqueles olhos

Escuros olhos

Inebriantes como os de Cabíria

Permaneçam nos seus delírios lunares

Permaneça para reconfortar

À luz da lua sob a Piazza Di´spagna

sexta-feira, setembro 05, 2008

Luso, o argonauta ( para uma Galega do século xv d.c )


( I )
Vem
Minha doce ateniense
Me ensina a te querer
Lá de longe
Nos mares da Galícia
A conheci
Éramos jovens
Deveras felizes
Mas você
Criança indomável
Fugiu
Não obstante
Incunbirem
Minh´alma
De encontrar algo
Que jamais presenciei
E a caravela
Herdeira
Dos desencantos humanos
Partiu
Em busca do velo
A busca por mim
Miserável desconhecido
Das perdas mundanas
Ó pandora da minha existência
Carrego a chave pensando em ti
( II )
Venha me visitar
A noite fria
E sem estrelas
Nos reserva o gozo
Despudor
Dos amantes perdidos
Traga o seu manto de cetim
Beba meu sangue
E cubra com sua pele alva
As manchas de pecado
Produzidas pelo suor sagrado
Dos amantes que erram
(III)
Cospe teu fogo em minha pele
Maldita soturna
Ardente de prazer
Ao ver-te em gemidos
Acorrento-a aos pés do puro
Chupe-o
E te deixa escorrer
O leite que derramo
Aos seios da ninfa
Chupada
Desde a borda
As mamárias glândulas
Sem pudor

sábado, agosto 23, 2008

Sobre os artistas ou O significado do número 8



Num papo de botequim, alguém fez este questionamento sobre o atleta Garrincha: - Todo artista é auto-destrutivo?
O interlocutor - um artista bêbado -, com ar de sábio, respondeu: - Não, Didi também acertou suas folhas secas na vida.

sexta-feira, agosto 22, 2008

Peter pediu, mas Wendy esqueceu

- Deixe a janela aberta, Wendy.




Wendy?














ELLE EST MORTE.