
Morrendo à beira deste pequeno precipício interior, a noite se esvai. Não importa o que virá pela frente. Quando o sol chegar, não mais estarei aqui.
Qual foi a última coisa que Marco Antônio disse a Cleópatra? Podem dizer o que quiserem, para mim a única coisa que importa é que no fundo eles se amavam. A única coisa que importa já não existe em mim, não consigo mais sentir.
Estou aqui neste conjugado há cinco dias. Até ontem o telefone ainda tocava bastante. Eles devem estar querendo me demitir. Fiquem à vontade para fazê-lo.
Relacionava-me bem com as pessoas de lá. As conversas limitavam-se ao jogo de futebol do final de semana anterior, ou a suposta homossexualidade do Siqueira, ou mesmo ao maravilhoso carro importado que acabara de chegar ao mercado, e naturalmente, seria uma grande prova de sucesso circular por aí com o mesmo.De certa forma já estava farto daquele trabalho. Chegar às 8:58 da manhã todos os dias para passar o cartão na catraca , e olhar para aquelas mesmas pessoas falando mal de alguém - nos intervalos de alguma Apelação judicial - , estava me fazendo sentir um insustentável impulso ao encontro com a soturna Dama da Noite. Na verdade, aqueles dias teriam sido menos dolorosos , se a vontade de encontrar-me com ela para uma partida decisiva de xadrez , de fato tivesse se concretizado. Mas nada mais é concreto, se é que um dia foi. As imagens disformes , o sol queimando pela manhã ; me deixando quase cego e com asco do meu próprio corpo - suado - , arrastando-se em direção ao maldito ar condicionado central do ambiente corporativo.Tudo que me roubou a velha chama. O terno ; a gravata - e seu nó górdio - , e a diária sensação de que a vida passa à minha frente , mas eu não posso vivê-la.
...
São 4:16 da manhã, não há mais nada a perder...
Estou aqui neste conjugado há cinco dias. Até ontem o telefone ainda tocava bastante. Eles devem estar querendo me demitir. Fiquem à vontade para fazê-lo.
Relacionava-me bem com as pessoas de lá. As conversas limitavam-se ao jogo de futebol do final de semana anterior, ou a suposta homossexualidade do Siqueira, ou mesmo ao maravilhoso carro importado que acabara de chegar ao mercado, e naturalmente, seria uma grande prova de sucesso circular por aí com o mesmo.De certa forma já estava farto daquele trabalho. Chegar às 8:58 da manhã todos os dias para passar o cartão na catraca , e olhar para aquelas mesmas pessoas falando mal de alguém - nos intervalos de alguma Apelação judicial - , estava me fazendo sentir um insustentável impulso ao encontro com a soturna Dama da Noite. Na verdade, aqueles dias teriam sido menos dolorosos , se a vontade de encontrar-me com ela para uma partida decisiva de xadrez , de fato tivesse se concretizado. Mas nada mais é concreto, se é que um dia foi. As imagens disformes , o sol queimando pela manhã ; me deixando quase cego e com asco do meu próprio corpo - suado - , arrastando-se em direção ao maldito ar condicionado central do ambiente corporativo.Tudo que me roubou a velha chama. O terno ; a gravata - e seu nó górdio - , e a diária sensação de que a vida passa à minha frente , mas eu não posso vivê-la.
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São 4:16 da manhã, não há mais nada a perder...






